Hrafnagaldr Óðins: A Visão Sombria de Huginn e Muninn (Que Não Está nas Eddas)

Hrafnagaldr Óðins: A Visão Sombria de Huginn e Muninn (Que Não Está nas Eddas)

A visão dos corvos Huginn e Muninn de Óðinn sobre o mundo é profundamente sombria, carregada de maus presságios e pela percepção inevitável da ruína. Voando diariamente sobre Midgard e os demais reinos, Huginn (Pensamento) e Muninn (Memória) não apenas recolhem informações para o Pai de Todos, mas testemunham em primeira mão a decadência da ordem divina, a fragilidade dos homens e as sombras do Ragnarök se aproximando. Eles representam a vigilância melancólica de quem enxerga a decadência que nem as próprias runas podem deter.

O Hrafnagaldr Óðins é uma narrativa obscura que descreve um estado de estupor e terror entre os deuses. A queda de Iðunn (a guardiã das maçãs da juventude) do freixo Yggdrasil simboliza o declínio da vitalidade divina, enquanto Óðinn envia seus mensageiros em uma busca desesperada por respostas que o silêncio da morte insiste em esconder.

O Cântico Integral

O Pai de Todos exerce o poder,

Os elfos discernem, os Vanir sabem,

As Nornas mostram, Ívidja procria,

Os homens suportam, os gigantes aguardam,

As Valquírias anseiam.

Os presságios os Æsir suspeitavam serem ruins;

O imprevisível confundia as runas.

Urðr foi ordenada a guardar Óðrerir,

Poderosa era para protegê-lo contra o inverno mais rigoroso.

Huginn então segue adiante, explora os céus,

Os deuses temem o desastre se ele demorar.

Thróinn acreditava que o sonho era ameaçador;

Dáinn achava que o sonho era sinistro.

Entre os anões, a virtude decai.

Os mundos afundam no abismo de Ginnung.

Alsviðr muitas vezes cai dos céus

E muitas vezes reúne os caídos novamente.

Não mais resistirá a terra ou o sol.

A corrente de ar carregada de corrupção não cessará.

O sábio se esconde na famosa Fonte de Mímir.

Você já entendeu, ou não?

A deusa inquiridora, descendente dos anões,

Caiu do freixo Yggdrasil e permanece nos vales.

Os mais velhos dos filhos de Ívaldi

Chamaram a mais nova de Iðunn.

Suspensa sob o duro galho da árvore,

Ela estava infeliz com sua queda.

Odin e os deuses entoaram canções mágicas,

E montaram em lobos;

Na casa celestial, Odin via, em Hliðskjálf,

A longa jornada dos viajantes.

O sábio deus perguntou à mulher

Sobre a ancestralidade e a descendência dos deuses

E seus próprios caminhos, se ela conhecia

A data da morte dos céus, de Hel, da vida e do mundo.

Ela não disse o que pensava, foi incapaz de proferir uma palavra,

Não expressou nenhuma alegria;

Lágrimas escorriam de seus olhos,

Com a dor reprimida, elas fluem novamente.

Da mesma forma, vem do leste do rio Élivága

Um espinho do campo do gigante de gelo

Com o qual Dáinn pica todas as pessoas

Todas as noites em toda Midgard.

Então as ações tornam-se lentas, as mãos ficam preguiçosas,

O estupor paira sobre a espada do Deus Branco (Heimdallr);

A insensibilidade flui para a mente,

Essas coisas acalmam em ondas todos os homens.

Da mesma forma Jórunn pareceu aos deuses afetada,

Inchada de tristeza quando eles não puderam obter uma resposta;

Quanto mais tentavam, mais eram confrontados com a recusal;

Falar muito ajudava muito menos.

O líder dos viajantes inquiridores, o guardião de Gjallarhorn,

Juntamente com o filho de Nál (Loki), seguiram seu caminho,

O escaldo de Grímnir (Odin) ficou no local

E manteve vigilância.

Os homens de Viður, transportados pelo vento,

Chegam a Vingólf;

Eles entram, cumprimentam os Æsir imediatamente

Durante o alegre banquete de Yggr.

Eles desejaram a Hangatýr (Odin), o mais afortunado dos deuses,

Felicidade ao governar a cerveja do alto assento,

Eles desejaram aos deuses boa sorte enquanto se sentavam na festa,

Para sempre desfrutarem dos prazeres com Yggjungur (Odin).

Os deuses, sentados de acordo com as ordens de Bölverkr,

Estavam saciados pela carne de Sæhrímnir;

Skögull distribuiu o barril de Hnikar em bandejas

Com muitos chifres com hidromel para brindar.

Os altos deuses perguntaram a Heimdallr, as deusas perguntaram a Loki

Muitas coisas durante a refeição,

Se a mulher havia transmitido alguma profecia ou palavras sábias.

Eles disseram que sua missão infrutífera havia acabado mal,

Muito pouco gloriosa ela fora;

Seria difícil encontrar algum modo

Para que uma resposta pudesse ser obtida da senhora.

Ómi (Odin) respondeu e todos eles ouviram:

"A noite será usada para novos conselhos,

Deixemos ponderar até de manhã aqueles que se esforçam

Para proporem planos para a glória dos deuses".

A mãe de Rindr corria a passos largos,

Ela e o cansado pai de Fenrir deixaram a festa;

As divindades despediram-se de Hroptr e Frigg,

Que foram embora com Hrímfaxi.

O filho de Dellingr (Dagr) avançou com seu corcel,

Adornado com joias preciosas;

A crina do cavalo brilha em todo o mundo dos homens,

Puxando o "Brinquedo de Dvalinn" (o sol) em sua carruagem.

Esposas de trolls e gigantes, cadáveres, anões e elfos negros

Foram para a cama mais ao norte na borda da poderosa terra

Sob a raiz mais externa da Árvore Central.

Os deuses se levantaram, Sól se levantou,

Nótt foi para o norte para Niflheim;

O primogênito de Úlfrún (Heimdallr), governante de Himinbjörg,

Iniciou o som de Gjallarhorn.

Nota Técnica: O poema termina abruptamente com o som da trombeta de Heimdallr, o sinal definitivo do início do fim. Detalhes como Iðunn ser filha de Ívaldi e Heimdallr ser filho de Úlfrún são preservados aqui, unindo a genealogia mística aos presságios do inverno final.

O Contexto Histórico e a Relação com as Eddas

O Hrafnagaldr Óðins (também conhecido como Forspjallsljóð) tem uma relação peculiar e controversa com as Eddas. Embora sua datação seja debatida e muitos o considerem uma obra pós-medieval do século XVII, o poema captura de forma única a angústia dos deuses diante do Ragnarök e de forças que nem mesmo as runas podem prever totalmente.

Ele fez parte de edições impressas da Edda em Poesia por um longo período, mas hoje a maioria dos acadêmicos não o considera parte do corpus edaico original.

A História do Poema nas Eddas

Ausência nos Manuscritos Medievais Principais:

O poema não consta no Codex Regius (o manuscrito principal do século XIII que contém os poemas míticos da Edda em Poesia), nem em outros manuscritos medievais primários.

A Sólundar-Edda e Edições do Século XVII a XIX:

A partir do século XVII, ele começou a aparecer em cópias de manuscritos em papel (como a compilação Sólundar-Edda). Em 1787, quando a primeira grande edição acadêmica impressa da Edda em Poesia foi publicada em Copenhague, o Hrafnagaldr Óðins foi incluído como parte integrante do texto. Durante todo o século XIX, ele foi lido, traduzido e estudado como um poema edaico autêntico.

Rejeição no Século XX:

Em 1867, o renomado acadêmico norueguês Sophus Bugge analisou o poema e argumentou que se tratava de uma composição pós-medieval (provavelmente do século XVI ou XVII), criada por um autor que imitava o estilo dos antigos poetas nórdicos (utilizando a métrica fornyrðislag e múltiplos heiti e kennings antigos). A partir dessa análise, a maioria dos editores removeu o texto das edições modernas da Edda em Poesia.

Reavaliação Recente:

Nas últimas décadas, estudiosos como Annette Lassen voltaram a estudar o poema sob uma nova perspectiva, argumentando que, independentemente de sua datação exata ser do final da Idade Média ou do início do período moderno, ele é uma obra literária islandesa sofisticada que preserva tradições e mitos genuínos que não aparecem em nenhuma outra fonte.

Resumo: Se você pegar uma edição da Edda do século XIX (ou traduções baseadas nelas), o poema estará lá. Em edições críticas modernas, ele costuma ser omitido ou colocado em um apêndice de "poemas pseudo-edaicos" ou tardios.





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